Há decisões judiciais que resolvem conflitos.
Há outras que criam precedentes.
E há aquelas que, silenciosamente, redefinem os limites da democracia.
A ordem para retirar cartazes de campanha do partido CHEGA, em pleno contexto eleitoral, não é apenas uma decisão jurídica, é um marco político. Pela primeira vez em Portugal, um tribunal determinou, de forma urgente e coerciva, a retirada de material de propaganda não por forma, não por local, não por ilegalidade administrativa, mas pelo conteúdo ideológico da mensagem.
Este é o ponto central que não pode ser relativizado.
Não estamos a falar de apologia direta à violência, nem de incitação explícita ao ódio físico. O slogan em causa, goste-se ou não dele, expressa uma posição política genérica, debatível, controversa, mas intrínseca ao espaço democrático. A democracia não foi criada para proteger apenas discursos confortáveis. Foi criada, precisamente, para tolerar os desconfortáveis.
Quando um tribunal decide que uma mensagem política deve ser retirada por “potencial discriminatório”, entra-se num terreno perigoso: o da subjetividade judicial aplicada ao debate público. O que hoje é considerado ofensivo para uns, amanhã pode ser interpretado como ofensivo para outros. E, nesse cenário, quem decide o limite deixa de ser o eleitor e passa a ser o juiz.
Este é o verdadeiro risco.
Portugal sempre foi um país onde campanhas eleitorais se resolviam nas urnas, não nos tribunais. Onde ideias fortes eram combatidas com outras ideias, não com despachos judiciais. A partir do momento em que o Judiciário assume o papel de moderador do discurso político, a democracia perde oxigénio, mesmo que a decisão venha embalada em boas intenções.
Não se trata de defender um partido específico. Trata-se de defender um princípio. Hoje foi o CHEGA. Amanhã pode ser qualquer outro partido que toque em temas sensíveis: imigração, criminalidade, religião, identidade, economia, género, costumes. A régua passou a existir. E já não está nas mãos do povo.
O mais inquietante não é a retirada dos cartazes.
É a rapidez.
É a excecionalidade.
É o silêncio confortável de quem acha que “desta vez foi contra o adversário certo”.
A história ensina que precedentes nunca ficam confinados ao alvo inicial. Eles sobrevivem às conjunturas e são reutilizados quando convém.
A democracia não morre com tanques nas ruas.
Ela enfraquece quando o debate é substituído pela censura preventiva, ainda que com toga e carimbo oficial.
E quando isso acontece, não importa em quem se vota.
Importa apenas quem passa a decidir o que pode ou não ser dito.
Contra factos, não há argumentos.
Mas contra precedentes mal construídos, há, e devem ser ditos, antes que seja tarde.

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